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Crise hídrica: reflorestar é a saída

Em margens de rios com até 10 metros de comprimento é preciso revegetar, no mínimo, 30 metros.

Do Planeta Sustentável
Por Afonso Capelas Jr.

Essa semana ouvi no rádio uma ótima explicação sobre a crise hídrica que faço questão de compartilhar. Em entrevista à rádio CBN São Paulo o engenheiro agrícola e pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Eduardo Assad, discorria sobre o que é preciso fazer (ou o que já se deveria ter feito faz tempo) para que nossos mananciais de abastecimento não definhassem, como acontece na região Sudeste, principalmente no Sistema Cantareira.

Perguntado sobre a quem cabe a culpa pela falta de água, Assad foi taxativo: “É da falta de planejamento dos governos federal, estadual e municipal que deixaram a situação chegar a esse ponto. Era preciso ter um plano B”.

Assad foi além. Lembrou que quando foi discutido o Código Florestal, em 2011, a comunidade científica cansou de alertar os deputados de que a biodiversidade tem uma função hídrica que é preservar a água e manter seu ciclo em equilíbrio. “Aí ficou aquela discussão sobre se vai cortar 10 metros da vegetação, se vai revegetar cinco metros ou 30 metros. Está aí o resultado”.

Especialista fala sobre a crise hídrica (foto: divulgação)

Especialista fala sobre a crise hídrica (foto: divulgação)

O pesquisador da Embrapa explicou que, pelo Código Florestal, em margens de rios com até 10 metros de comprimento é preciso revegetar, no mínimo, 30 metros. Mas disse que alguns especialistas em hidrologia consideram que essas medidas não são válidas. “É preciso revegetar até onde a água vai quando há inundações, as chamadas várzeas”.

Eduardo Assad confirmou categoricamente que em locais onde a vegetação das nascentes está protegida e as Áreas de Preservação Ambiental (APPs) também, não falta água. Ao contrário, ela brota.

O mais nítido exemplo está na cidade de Extrema, localizada no Sul de Minas, na região onde está parte do Sistema Cantareira. Lá existe, desde 2007, um projeto de reflorestamento de mananciais chamado Conservador das Águas, do qual estão envolvidos a prefeitura, proprietários rurais, a Agência Nacional de Água (ANA) e a Fundação SOS Mata Atlântica. Graças à conservação da vegetação nativa, as chuvas de janeiro já permitiram que a água da região brotasse das nascentes.

Entretanto, Extrema é apenas um oásis para amenizar a situação. “Quando se olha em volta, nos municípios vizinhos que não têm programas similares como Bragança Paulista, Joanópolis, Caieiras e Franco da Rocha, a situação não está nada boa”, afirmou Assad.

Os motivos maiores, de acordo com o pesquisador: “Ali há especulação imobiliária que vai desmatando, avançando para a beira dos rios, retirando a função hídrica da vegetação. Com isso, a água das chuvas bate, escorre e não infiltra na terra”.

Essa é a causa maior do tão comentado efeito esponja: a água cai no Cantareira e é toda absorvida. Por isso, mesmo com as chuvas das últimas semanas, os reservatórios não enchem. “Se existisse vegetação ali, a própria água que cai se encarregaria de ir saturando as áreas mais baixas. Quem estuda hidrologia sabe disso, não é de hoje”.

Na prática, existe solução para reverter a situação. Várias, acredita o pesquisador da Embrapa, mas não só as obras de engenharia. “Só estamos discutindo essa solução. Se começarmos a montar, agora, um grande projeto de revegetação de matas de galeria e proteção das nascentes nos doze municípios em volta do Cantareira, certamente não teremos mais esse problema tão grave de falta de água”.

Segundo os estudos da Embrapa será necessário recuperar e proteger cerca 30 mil hectares de vegetação na região do Sistema Cantareira. Com isto, em três ou quatro anos a erosão pode ser reduzida e a água teria uma infiltração maior no solo. “Só que não estou falando de pinus e eucalipto, mas de espécies nativas para recompor o cenário de Mata Atlântica”, completou Eduardo Assad.

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