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Sul de Minas

Da colheita do café no Sul de Minas para o Mundial na Dinamarca

Jovem de 19 anos subia no “pau de arara” para colheita de café, para ajudar no trabalho e renda da família e agora brilha no Mundial de Handebol, na Dinamarca.

Artigo por Globoesporte.com
Foto: Reprodução/Facebook
Bruna ao lado da mãe e das irmãs em Campestre, Minas Gerais
Bruna ao lado da mãe e das irmãs em Campestre, Minas Gerais

O mundo girou rápido para a jovem Bruna de Paula. Aos 19 anos, a menina de Campestre, cidade de 20 mil habitantes e distante 400km de Belo Horizonte, fez sua estreia em mundiais. Entrou em quadra diante da Coreia do Sul e depois duelou também contra Congo. Por alguns instantes, viu um filme passar em sua cabeça. Alguns anos antes, a pequena subia o caminhão e a mãe, dona Marinalva, rumava para a colheita do café. Eram 30 minutos balançando no colo. Não ia sempre, mas antes mesmo de conhecer o handebol já sabia que era do suor que viria a sua vitória.

A mãe colhia os grãos nas fazendas espalhadas pela região e solteira, levava a filha junto. No período do “saco cheio”, o ápice da colheita, também sobrava para ela. Ali, tirando grão por grão com as mãos, Bruna precisava de habilidade para não estragar o fruto do cafeeiro. A mesma destreza que agora apresenta em quadra no Mundial da Dinamarca.

– Minha mãe trabalha na colheita do café até hoje. Em Campestre, na minha cidade, no Sul de Minas. E eu também já colhi café. Não trabalhava sempre, mas na semana de “saco cheio”, que é quando chamamos o período de maior colheita e no período das férias escolares, ia com a minha mãe sim. Eram 30 minutos até as fazendas ao redor da cidade. Não lembro de nomes, mas íamos de ônibus ou de caminhão – lembra Bruna.

Aos dez anos, Bruna conheceu o handebol. O professor da escola viu na menina esguia um perfil ideal para o handebol. Veloz e um pouco mais alta que as colegas, ela passou a se destacar. Do tempo que colheu café ao lado da mãe e das quatro irmãs Francielle (29), Eduarda (26), Bianca (11) e Marília (22), a armadora direita guarda a humildade e até a técnica. Precisava ser veloz para colher os frutos e delicada para não danificá-los, o que segundo ela, pode ter ajudado no esporte.

– É preciso ter cuidado com o grão para não estragar. Tem que ter todo um jeito. Lá você trabalha com a mão, aqui no handebol também. Tem uma ligação. Você precisa de uma “ligereza” na mão para colher rápido também. Acredito que influencie em alguma coisa. Mas, minha família sempre me apoiou. Sempre pediu para fazer algum esporte e estudar – se recorda.

Foto: Wander Roberto/Photo&Grafia
Aos 19 anos, Bruna Paula é a mais nova da seleção
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Agora na seleção brasileira e ao lado das atuais campeãs mundiais, Bruna escolhe o tênis que joga. Viaja pelo mundo. No ano passado, esteve na Macedônia, no Mundial júnior, e também jogou as Olimpíadas da Juventude em Nanquim, na China. Antes, porém, precisava treinar por anos com o mesmo calçado para não tirar a vez das irmãs terem algum presente.

– O orçamento era apertado. Sempre foi minha mãe sozinha. Pensão nunca ajudou. Para comprar um tênis e uma roupa era apertado. Tinha que treinar com tênis velho e durar. E ela ficava em um dilema. Comprava para uma e deixava a outra sem? Ela tinha que se virar. É bem diferente estar aqui no Mundial, na Dinamarca, jogando ao lado das atuais campeãs mundiais. Meu próximo sonho são as Olimpíadas. Deu uma piscadinha aqui para participar. Esse é meu próximo objetivo. Vou tentar – garante a jovem.

O próximo jogo do Brasil será contra a Argentina, nesta quinta-feira, às 13h (de Brasília), com transmissão do SporTV, e Bruna estará em quadra por alguns minutos. Vem ganhando a confiança de Morten Soubak a cada partida. Vencer o duelo e ajudar o Brasil é o plano principal, mas a armadora também tem outra meta. Quer usar a competição para se destacar e ir para a Europa. E por isso até deixaria o sonho da faculdade de educação física ou veterinária esperar mais um pouco. Tudo para retribuir tudo que a mãe fez por ela até agora.

– Ajudar minha mãe e dar uma vida melhor para ela é tudo que mais quero. Por tudo que ela já fez pela gente. Mais que tudo, quero retribuir isso. Vai ser um orgulho para mim. Agora, jogar um Mundial. Ela não tem nem noção do que é isso. No Brasil está meio difícil. Não sei como vai ficar, se vai ter time na próxima temporada. Tenho que melhorar isso. Vou aproveitar o Mundial para
tentar mostrar meu trabalho. É uma vitrine. Quero ajudar o Brasil e como consequência tentar alguma coisa na Europa – finaliza.

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