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Mariana: lama mata onça, gato do mato, jaguatirica e peixes

Desastre em Mariana chegou à maior reserva de Mata Atlântica em Minas, matando felinos como gato do mato, onça e jaguatirica. No Espírito Santo, pescadores podem ficar 30 anos sem emprego e pousadas perdem hóspedes.

Artigo por Brasileiros
Foto: Governo do Espírito Santo
A lama da Samarco se espalha pelo litoral capixaba: mancha de 43 quilômetros
A lama da Samarco se espalha pelo litoral capixaba: mancha de 43 quilômetros

A tragédia que se abateu sobre Minas Gerais com o rompimento de duas barragens na região de Mariana agora faz vítimas no Espírito Santo. No rastro de lama que chega ao mar capixaba, a história das pessoas que perderam o trabalho às vésperas do fim de ano e o grave comprometimento da maior reserva de Mata Atlântica em Minas Gerais.

Enquanto a Justiça pode demorar anos até decidir sobre a responsabilidade da mineradora Samarco – a dona das barragens em Minas –, os detritos contaminados enlameiam vilas mineiras até atingir a foz do Rio Doce, na praia de Regência, cidade de Linhares (ES). Especialistas consultados pela Brasileiros afirmam que ainda é “impossível” cravar o número de animais mortos ou espécies ameaçadas. Mas dá para estimar. De acordo com o último levantamento do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), foram recolhidas três toneladas de peixes mortos na região.

Biólogo da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA), Francisco Mourão lamenta que um dos pontos mais prejudicados tenha sido a confluência do Rio Santo Antônio com o Rio Doce. “Mais de 80% das espécies de peixes do Rio Doce nascem no Santo Antônio.”

Outra grande quantidade de animais terrestres foi atingida, especialmente aquelas que buscam abrigo nas matas que acompanham o curso d’água. “Cerca de 3 mil hectares de matas impactadas.” Além da anta, felinos selvagens, como onça pintada, gato mourisco, jaguatirica, gato do mato e onça parda, morreram aos montes. “Infelizmente, a lama atingiu a maior região de Mata Atlântica em Minas Gerais.” Para o biólogo Dino Xavier Zammataro, que acompanha o desastre de perto, “a cadeia alimentar foi fortemente afetada, desde os plânctons até os animais de grande porte”.

A consequência é que, além de 12 mortos e 10 desaparecidos em Minas, agora quem sofre é a população que mora na praia de Regência. O Ibama estima em 43 km a extensão da água barrenta que invadiu o mar do Espírito Santo. A lama densa, mais perigosa, atinge 14 km ao norte e oito km ao sul. Uma das praias mais propícias para o surf no País, Regência já sofre com o cancelamento das reservas de turistas no fim de ano e com o desemprego dos pescadores.

É o caso de Arnoilton Alves Pereira (53), pescador há 35 anos que ganhava R$ 5 mil com a pesca de 600 quilos de peixe por mês. Ele e os colegas saíam todos os dias às 5h para pescar. Voltavam para casa por volta das 10h, descarregavam e retornavam ao mar ou rio às 14h, onde ficavam até as 19h. “A pesca é algo inimaginável agora. Temos que procurar novas áreas para trabalhar”, diz.

Seu Arnoilton lamenta o tipo de ajuda oferecida pela Samarco. A companhia paga R$ 350 por dia para os pescadores que ajudam a monitorar o avanço da lama. “Mas os gastos com gasolina [dos barcos] e tripulação reduzem o nosso lucro para R$ 150.”

E os prejuízos não param. O turismo no Estado já foi afetado. O setor de hotéis registrou cancelamento de 20% nas reservas para o fim deste ano, informa a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). Uma das prejudicadas em Regência é a dona da pousada Aranã, dona Dulce de Castro Neves. “Faz oito dias que meu telefone não toca. Nessa época, eu já teria quase todos os quartos reservado para o Ano-Novo.” Questionada, a Secretaria de Turismo do Estado admitiu o cancelamento “pontual” de reservas e lembrou dos pontos turísticos que não foram e não serão afetados pelo lamaçal, como Guarapari e Anchieta. Sobre a qualidade das águas, o governo garante “não haver perigo de intoxicação pelo contato de banhistas e surfistas”.

Cálculos divulgados pelo Ibama indicam que os rejeitos não chegarão ao Arquipélago de Abrolhos (BA) nem a outras praias do Espírito Santo. Mas eles atingiram a reserva ecológica de Comboios (ES), único ponto fixo de desova das tartarugas-gigantes no Brasil. O biólogo Zammataro diz que a Samarco errou ao não tentar barrar a lama antes de ela chegar ao Rio Doce. O colega Torquato, da AMDA, acha que o incidente obriga as autoridades a descobrirem uma forma eficaz de conter os rejeitos. “Ou a lama vai descer durante anos.”

Para seu Arnoilton, o estrago já está feito. “Só vamos voltar a pescar em 20, 30 anos.”

As barragens no Brasil e no mundo

A extensão territorial brasileira e as condições propícias para a retirada de minério em Minas tornam ideal a construção de grandes barragens no Brasil. A de Fundão, a primeira a romper, tem capacidade para 60 milhões de metros cúbicos, maior do que a capacidade da segunda, a de Santarém, com volume de 7 milhões de m³. Na Romênia, o volume médio das barragens é de 10 milhões, mas a maioria das obras tem capacidade para milhares de metros cúbicos, segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É o caso da Alemanha e Espanha (100 mil m³) e África do Sul (50 mil m³).

A classificação de risco também não segue padrão internacional. Em razão das dimensões das mineradoras de Mariana, a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam) classificou as duas barragens com grau de risco 3, que representa “alto potencial de dano ambiental”. “A maioria das barragens de contenção de rejeitos [pelo mundo] é operada pela própria companhia e supervisionada pelo Estado. Por isso, a segurança fica em segundo plano, já que estas autoridades têm outras tarefas a cumprir, como avaliar a produção, o meio ambiente e a segurança no trabalho”, diz o estudo.

Enquanto pouco se sabe sobre os critérios brasileiros para inspecionar as barragens, na África do Sul a inspeção só pode ser feita por consultores independentes. Na Alemanha, quem faz esse serviço é o Estado, que dispensa classificação de risco e só exige plano de emergência em casos críticos. Na Espanha, a inspeção é feita a cada cinco anos e exige três avaliações de risco. Já na França, onde as barragens são todas de pequeno porte, a inspeção é anual e o plano de alerta à população vizinha é obrigatório.

Nos Estados Unidos, as informações são bem mais difíceis de apurar porque a desregulamentação por lá é alta: cada companhia usa critérios próprios de fiscalização. Engenheiro da Associação Brasileira de Mecânica dos solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), Benedito Torquato explica que um dos principais critérios para a construção de barragens é calcular sua capacidade de suportar rejeitos. “A partir daí, defini-se o projeto. Toda obra de engenharia tem um tempo útil. No caso das barragens é de, pelo menos, 100 anos.”

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