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Minas Gerais agora tem queijo de marca

Iguaria típica produzida na Serra da Canastra ganha selo que vai reforçar a identificação geográfica do produto, já conquistada junto ao Inpi.

Do Estado de Minas

Em busca de agregar valor a um dos produtos mais tradicionais de Minas Gerais, foi lançada na quarta-feira (10) a marca que distinguirá o queijo produzido na Serra da Canastra dos demais. O novo selo reforça a função da identificação geográfica concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) aos produtores da região, além de dificultar a venda desregrada de outros tipos da iguaria com as mesmas especificidades como se fossem produzidos na Canastra. A ação é a primeira de uma série de propostas em parceria com o Sebrae para difundir a história por trás do queijo.

O queijo produzido na região será comercializado com três identificações: o selo da vigilância sanitária, outro de identificação geográfica e a nova logomarca criada pelos produtores. O primeiro atesta as condições produtivas; o outro garante que o queijo foi feito seguindo as regras certificadas pelo Inpi e o último confirma a origem. Segundo o presidente da Associação de Produtores de Queijo Canastra (Aprocan), João Carlos Leite, a marca vai permitir ao consumidor identificar a origem do queijo. “É como o símbolo da Toyota ou a maçãzinha da Apple”, compara.

Apenas os produtores que tiverem o selo do Inpi poderão solicitar o uso da logomarca. Segundo Leite, no site da associação será possível comprar o queijo de acordo o produtor selecionado. No mais, haverá uma lista com o nome de todos os varejistas credenciados para o comércio do queijo da Serra da Canastra. “Isso diminui o risco de pirataria. A falsificação fica mais difícil”, reforça o presidente da Aprocan.

Outras ações serão adotadas nos próximos meses para difundir o modo de preparo do queijo e outras peculiaridades ligadas à produção e história da iguaria. Segundo o analista da unidade de Agronegócio do Sebrae-MG, Ricardo Boscardo, em julho, um grupo de chefs de Belo Horizonte foi convidado para visitar a região para estreitar laços com os produtores. O mesmo será repetido com proprietários de empórios, professores de gastronomia e outros profissionais de perfis parecidos. Os visitantes que já estiveram nas fazendas produtoras conheceram o modo de preparo do alimento e os locais em que a iguaria é feita. “O objetivo é que o queijo seja tratado como algo que expressa o valor de uma região”, afirma.

"É como o símbolo da Toyota ou a maçãzinha da Apple" - João Carlos Leite, presidente da Aprocan, ao lembrar a importância de poder identificar o produto por uma logomarca (Foto: Paulo Filgueiras)

“É como o símbolo da Toyota ou a maçãzinha da Apple” – João Carlos Leite, presidente da Aprocan, ao lembrar a importância de poder identificar o produto por uma logomarca (Foto: Paulo Filgueiras)

Terroir

No mundo da gastronomia, o termo francês terroir é usado para identificar um certo produto desenvolvido segundo as interações entre características física, geográfica, biológica e outras que permitem a criação de algo diferenciado, senão único. No Brasil, tem ganhado espaço com a adoção dos selos de identificação geográfica do Inpi. Em Minas, os cafés do Cerrado (incluindo o café verde) e da Mantiqueira, a cachaça de Salinas, os queijos do Serro e da Canastra, as peças de estanho de São João del-Rei e os biscoitos de São Tiago já conquistaram o título.

No caso do queijo canastra, um dos critérios para o reconhecimento é que a fazenda esteja localizada em Piumhí, Vargem Bonita, São Roque de Minas, Medeiros, Bambuí, Tapiraí ou Delfinópolis. “Não se trata simplesmente de dizer o que é queijo, mas, sim, o que é a alma da Canastra”, afirma o assessor de Planejamento e Projetos da Aprocan, Paulo Henrique de Matos Almeida. Ele considera a obtenção da certificação de indicação geográfica, em 2012, um marco para a organização da cadeia produtiva.

O diretor da 2DA Branding & Design, Daniel Guimarães, afirma que o projeto visa apresentar e reforçar a marca queijo canastra. A criação da marca e do projeto durou 18 meses. Desde 2012, a empresa trabalha em projeto semelhante com o café do oeste da Bahia. “Temos a falsa impressão que é um produto conhecido nacionalmente. Mas, se você chegar em Recife, ele não é conhecido”, afirma Guimarães. Além de se tornar conhecido, todo o processo tem permitido aos produtores agregar valor. O quilo do queijo certificado hoje é vendido até por R$ 40 em supermercados da capital mineira. Antes saia por cerca de R$ 10.

Uma série de 25 vídeos foi desenvolvida pelo Nitro Imagens para retratar a rotina de alguns dos principais produtores da região, ao mesmo tempo em que é contada a história da Canastra. A empresa também elaborou outros dois vídeos – um institucional e outro para reforçar a marca. Todos serão apresentados em um canal do Youtube, no site da associação e nas redes sociais. Os mesmos serão usados em feiras e eventos de gastronomia.

Persistentes

Os produtores do queijo canastra são agricultores familiares, de pequeno porte, com produção média diária de 20 unidades. Com o apoio do Sebrae-MG, eles estão reformulando suas práticas de produção, com os devidos cuidados sociais e sanitários, aprimorando a gestão de seus negócios e conquistando novos mercados.

Com a alma da Canastra

Municípios que terão a origem do queijo comprovada pelo novo selo

» Piumhi (Centro-Oeste)
» Vargem Bonita (Centro-Oeste)
» São Roque de Minas (Centro-Oeste)
» Medeiros (Centro-Oeste)
» Bambuí (Centro-Oeste)
» Tapiraí (Centro-Oeste)
» Delfinópolis (Sul de Minas)

Enquanto isso…

…HORTALIÇAS RASTREADAS

Em 6 de novembro, também foi lançado o selo “Região de São Gotardo”, para certificar hortaliças e frutas produzidas por agricultores familiares dos municípios de Campos Altos, Ibiá, Rio Paranaíba e São Gotardo, todos no Alto Paranaíba. Os objetivos da criação da marca são: proteger a qualidade, garantir que o consumidor vai adquirir produtos confiáveis, abrir novos mercados, atrair investimentos e fomentar o crescimento do cultivo, entre outros. A princípio, recebem o selo “Região de São Gotardo” cenoura, alho, batata e abacate.

Fim de uma longa novela

O queijo mineiro busca espaço depois de uma série de problemas que forçou parte da cadeia a migrar para a produção de leite para buscar maior rentabilidade. O drama teve início com a restrição da comercialização do queijo além das divisas mineiras. A legislação sanitária federal impedia que a iguaria fosse vendida em outros estados. Mas muitos atravessadores faziam a distribuição clandestina do queijo. Burlando a fraca fiscalização, eles conseguiam fazer entregas em importantes varejistas da Região Sudeste. O drama de um dos principais produtos da cultura do estado, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial, foi até retratado no documentário O mineiro e o queijo, dirigido por Helvécio Ratton.

Uma normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicada em 2011 parecia solucionar o problema, permitindo a venda do produto depois de 60 dias de cura. Mas, na prática, o produto frescal e meia-cura era limitado aos municípios mineiros. O resultado foi um corte significativo no número de produtores. Em 2004 eram mais de 1,7 mil, enquanto no ano passado, segundo diagnóstico feito pelo Sebrae-MG, restavam apenas 700.

Em meados de 2013, a Instrução Normativa 57 foi revisada. Pelo novo texto, o tempo de maturação deveria ser definido por estudos técnico-científicos. As pesquisas deveriam mostrar se o queijo estava apto para consumo. Além disso, os produtores são obrigados a comprovar que suas propriedades têm controle de brucelose e tuberculose, feito nos últimos três anos. “Isso permitiu o acesso a outros mercados, o que é crucial para a sobrevivência da região”, afirma o assessor de Planejamento e Projetos da Associação de Produtores de Queijo Canastra (Aprocan), Paulo Henrique de Matos Almeida. Ele diz que isso permitiu resgatar o orgulho dos produtores, assim permitindo a continuidade de outras gerações no ofício.

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