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Minas Gerais perde mais uma

Depois de ficar de fora do Mapa do Turismo Brasileiro, envenenamento de rios pode ser devastador para conservação da biodiversidade em região turística no Sul de Minas.

Por Marcelo Grossi *

Em 2016, mais de 180 cidades turísticas de Minas Gerais ficaram de fora do Mapa do Turismo Brasileiro, ferramenta de gestão do Ministério do Turismo, que permite direcionamento de políticas públicas para o setor. Segundo o Ministério, esses municípios deixaram de apresentar documentação comprobatória, o que teria inviabilizado sua validação na ferramenta.

O Circuito Terras Altas da Mantiqueira, no Sul de Minas, é uma das regiões turísticas do estado que não aparecem mais na versão atual do Mapa do Turismo. No entanto, há outra notícia igualmente devastadora para alguns municípios que integram as Terras Altas da Mantiqueira: o envenenamento do rio Verde e de seus afluentes. Especialmente, o rio Passa-Quatro, que dá nome à estância hidromineral no extremo Sul de Minas, na divisa com Cruzeiro, cidade paulista no Vale do Paraíba.

Foto: Carlos Moura
Rio Passa-Quatro com coloração
Rio Passa-Quatro com coloração

Do ponto de vista da diversidade biológica, trata-se de uma área estratégica como corredor ecológico na Mata Atlântica, que integra a Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra da Mantiqueira, unidade de conservação federal sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com sede no município mineiro de Itamonte.

Tanto na zona rural quanto na área urbana de Passa-Quatro, além do despejo de esgoto doméstico sem qualquer tratamento nos corpos d’água tributários do rio homônimo, o que mais impressiona a população local é a mudança de coloração de suas águas. Nas últimas semanas, passaquatrenses registraram vasto acervo fotográfico com imagens em que o rio aparece tingido de azul ou preto.

Diante da certeza inequívoca do lançamento de efluentes industriais no rio Passa-Quatro, na semana passada, houve denúncias à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD-MG), em Varginha, e ao Escritório Regional do Ibama em Lavras, por atuar suplementarmente àquela Secretaria.

Há fortes indícios quanto à autoria do lançamento de efluentes. Existem imagens registrando, inclusive, o momento em que são despejados a partir de tubulação que a população identifica como proveniente de uma lavanderia industrial especializada em tingimento de jeans. Assim, denúncia de mesmo teor, solicitando fiscalização em todas as indústrias instaladas ao longo do rio, foi apresentada ao Promotor de Justiça de Passa-Quatro, Flávio Azevedo, que recomendou seu registro, também, no site do Ministério Público do Estado de Minas Gerais.

O Chefe do Escritório Regional do Ibama em Lavras, Adriano Souza, afirmou, por e-mail, que a solicitação de fiscalização seria reforçada em reunião mensal da Unidade Regional Colegiada do Sul de Minas – URC COPAM VARGINHA, órgão colegiado da SEMAD, no dia 7 de novembro.

Enquanto as autoridades competentes deixam de agir com a presteza que a gravidade da situação requer, o rio continua sendo envenenado. Ou, no mínimo, tingido recorrentemente por efluentes industriais, o que assombra a população de uma estância hidromineral.

Outrora caudaloso, o volume atual e a poluição do rio Passa-Quatro não permitem que ele seja uma opção de lazer para os passaquatrenses. Relatos dão conta de que havia mais de uma dezena de espécies de peixes no rio, todas atualmente dizimadas. “O rio está morto”, dizem.

“A gente descia de boia do Pinheirinhos até Tronqueiras, esvaziava e voltava no circular (ônibus)”, afirma José Augusto Nunes (48 anos), passaquatrense e guia de montanha na Serra da Mantiqueira, fazendo referência ao percurso feito no rio entre dois bairros em extremos da cidade. A também passaquatrense Agnes Courbassier (42 anos), professora de arte na rede estadual de ensino, lembra-se com saudosismo dos tempos em que percorria o rio por quilômetros sobre uma boia e, depois da travessia, voltava de ônibus para casa.

Agnes e José Augusto, mais conhecido na Mantiqueira como Guto Guia, integram um grupo de cidadãos que idealizaram, em julho, a iniciativa SOS RIO PASSA QUATRO, cujo objetivo primordial é a defesa do rio. Eles pretendem criar uma ONG ambientalista para pressionar o poder público a agir em defesa do meio ambiente, da conservação dos recursos hídricos e da biodiversidade nas Terras Altas da Mantiqueira. “Juntos somos mais fortes”, afirmou Agnes.

* Marcelo Grossi é antropólogo, jornalista (9229/DF), servidor público federal da carreira ambiental e suplente de vereador em Passa-Quatro (MG).

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3 comentários

  1. Eduardo Giachini

    Por um momento, achei que era uma foto aérea do famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Mas é o agonizante Rio Passa-Quatro tingido de preto pela indústria local. Parabéns ao site Sulminas146 por dar publicidade à denúncia do ambientalista Marcelo Grossi. E que "bela" maneira da indústria passaquatrense celebrar um ano do assassinato do Rio Doce pela VALE.

  2. Eduardo Giachini

    Por um momento, achei que era uma foto aérea do famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Mas é o agonizante Rio Passa-Quatro tingido de preto pela indústria local. Parabéns ao site Sulminas146 por dar publicidade à matéria-denúncia do ambientalista Marcelo Grossi. E que "bela" maneira da indústria passaquatrense celebrar um ano do assassinato do Rio Doce pela VALE.

  3. Victor Andrade

    Matéria sensacional ! Temos que promover a proteção da nossa biodiversidade principalmente a dos rios . Parabéns pela excelente matéria, Marcelo Grossi