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Sul de Minas

Conheça o pioneiro na divulgação da observação de aves no Brasil

Jefferson Silva já fotografou mais de 570 espécies nos últimos anos e esteve duas vezes na África do Sul para fazer observação de aves.

Foto: Jefferson Silva - arquivo pessoal
Jefferson Silva em um momento de observação e fotografia de pássaros
Jefferson Silva em um momento de observação e fotografia de pássaros

O dia ainda não amanheceu, são 4h30 da manhã e já é hora de pegar estrada. São cerca 170km de Paulínia a Dourado e Itirapina, interior de São Paulo. Itirapina ainda tem uma grande área de cerrado, única área no estado de São Paulo que se pode avistar o pássaro papa-moscas-do-campo. Era 17 de março de 2012 e, por 20 horas, Jefferson Silva, pioneiro na observação de aves no Brasil, e alguns amigos puderam observar o bicho, além de espécies como os pássaros gavião-caboclo, o canário-rasteiro, o maçarico-solitário. Puderam também observar o surpreendente mamífero cuíca-de-lã, uma espécie ameaçada de extinção que, segundo o guia que acompanhava o grupo, nunca tinha visto em 20 anos de andança pela região.

A paixão pelos pássaros vem desde pequeno para este mineiro de Passa Quatro, no Sul de Minas. Jefferson Rodrigues de Oliveira e Silva, 41 anos, gerente de operações e professor universitário, ganhou seu primeiro Coleira, o popular coleirinha, quando tinha seis anos. Até os 12 manteve a criação de algumas aves em gaiola. Em virtude de uma mudança de cidade, se desfez dos bichos e só voltou a tê-los depois dos 30 anos, quando morava em Campinas-SP.

“Em 2003, voltei a ter pássaros em gaiola, após uma viagem ao Parque Nacional de Itatiaia. Na viagem fiz fotos de algumas espécies que pude observar no parque e me despertou novamente o interesse pelas aves. Voltei para minha cidade e fiz um cadastro no IBAMA e adquiri alguns pássaros, mas continuei a tentar fotografá-los.

Desde 2004, esse mineiro cultiva o hobby de observação e fotografia de pássaros. E foi por essa prática e a proximidade com a natureza e os animais que tomou uma decisão. “Após alguns meses fotografando pássaros em liberdade, vi que mantê-los presos era algo errado. Uma crueldade prender aquele que é o símbolo de liberdade. Desfiz dos meus pássaros e continuei a fotografá-los em liberdade. Bicho nasceu para ser livre.”

No ano seguinte, criou o site Aves do Brasil, primeiro site brasileiro para registros de fotos e sons de aves, precursor do atual WikiAves, considerado a Enciclopédia das aves do Brasil. Jefferson Silva é considerado por muitos como o principal responsável por ter impulsionado a fotografia e a observação de aves no Brasil. Por meio do site, que funcionou entre setembro de 2005 e setembro de 2009, contou com mais de 2.500 usuários, mais de 20 mil fotos e mais de mil espécies cadastradas, abriu portas para que centenas de brasileiros pudessem praticar e compartilhar suas descobertas e suas apreciações em vários pontos verdes do país. Atualmente, segundo ele, estima-se que no Brasil são cerca de 15 mil observadores de pássaros.

Foto: Jefferson Silva - Arquivo Pessoal
Espécie Milvus aegyptius (Yellow-Billed Kite) fotografado no Parque Kruger
Espécie Milvus aegyptius (Yellow-Billed Kite) fotografado no Parque Kruger (foto: Jefferson Silva / Arquivo Pessoal)

Assim como no relato que abre essa reportagem, em algumas saídas para fotografar é habitual pular da cama às 5h da manhã e só parar após a corujada, termo dado pelos observadores para a saída à procura de corujas, tarde da noite. Em uma dessas andanças, no Parque Nacional da Serra da Canastra, na cidade de Medeiros, Minas Gerais, Jefferson teve uma surpresa.

“Estava na beira do rio, atrás do pato-mergulhão, uma espécie ameaçada de extinção. Quando cheguei no hotel, vi que minha canela estava preta. Aí comecei a tirar e contei mais de 150 carrapatos.”

Foi também na Serra da Canastra que pôde fotografar o jacurutu, maior coruja das Américas. “Mais uma vez meu coração deu uma disparada. Não acreditei que estava vendo esse bicho, a maior coruja das Américas. E ainda de dia, sob a luz do sol.”

Jefferson já viajou para vários locais para fotografar, desde locais específicos, como parques, e em locais diversos, como brejos, sítios e campos. Já esteve na Amazônia e no Pantanal, em parques nacionais como o de Itatiaia, Serra da Canastra, PETAR e em dezenas de cidades do Brasil. Em três oportunidades fotografou fora do país. Na África do Sul, em 2008 esteve no Parque Nacional Kruger, para onde foi novamente no final de julho de 2013, no Parque Nacional Wilderness e também na Cidade do Cabo. Ainda em 2013, em uma viagem a trabalho aos Estados Unidos, para Raleigh (Carolina do Norte) e Atlanta (Geórgia), aproveitou os sábados para fazer observação e fotografias. Já são mais de 570 espécies fotografadas por ele no decorrer destes anos.

Gaveão de Penacho, fotografado em Iporanga (foto: Arquivo Pessoal)

Gavião de Penacho, fotografado em Iporanga (foto: Jefferson Silva / Arquivo Pessoal)

Entre os principais registros, escolhidos pelo pioneiro do birdwatching no Brasil, estão do gavião-de-penacho (segundo ele, o mais lindo dos gaviões que temos no Brasil), que não é um bicho ameaçado de extinção, mas é difícil de ser visto; o caburé-acanelado, uma das mais raras corujas brasileiras, cuja espécie muitos ouvem, mas nem sempre é possível vê-la; mocho-dos-banhados, uma das suas espécies prediletas, que não cansa de fotografar e considera uma das aves mais bonitas que já viu.

Em 2007 criou o GOAC – Grupo de Observadores de Aves de Campinas, que conta com 60 participantes. Em 2011 comprou equipamento profissional, uma Canon 7D, lente Canon 300mm f/2.8 IS e Teleconversores 1.4x e 2.x, cujo valor chega a um carro popular no Brasil, e desde então, estuda e pratica fotografia de aves mais seriamente, não só para registro de espécies, mas procurando sempre a melhor qualidade de imagem.

Mas nas passarinhadas, nem tudo são flores ou lindos registros, afinal, além de cansativo, carro atolado no meio do nada, horas a fio dentro do mato com quatro, cinco quilos de equipamentos nas costas, como máquina, lentes, tripés e outros acessórios, pode render perigos e decepções, como dar de cara com uma cascavel e quase ser picado. Mas o mineiro desbravador de Passa Quatro garante que vale a pena e sonha em ver uma maior consciência das pessoas em relação a preservação ambiental.

“Observar e fotografar espécies raras é algo que jamais esquecerei. Mas também ver destruição de mata, de ambiente dos bichos é algo que marca muito, é triste. O que me move fotografar são dois motivos: o primeiro totalmente pessoal, pois é uma atividade prazerosa. O segundo motivo é a vontade de fazer com que outras pessoas tomem consciência, percebam a necessidade de preservação da natureza. Não só pelos bichos, mas por nós mesmos. Afinal, o planeta é um só, e há uma relação entre todas as espécies, um equilíbrio. Todos precisam desse equilíbrio.”

Perfil

Jefferson Rodrigues de Oliveira e Silva tem 41 anos, mudou recentemente para Porto Alegre, onde trabalha como gerente de operações. Pai da Rafaela, que nasceu há poucos dias, é formado em ciências da computação pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e mestre em ciência da computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mineiro de Passa Quatro, que fica no Sul do estado, foi o fundador do site Aves do Brasil (funcionou de setembro de 2005 a setembro de 2009), primeiro site brasileiro para registros de fotos e sons de aves, precursor do atual WikiAves, considerado a Enciclopédia das aves do Brasil. Jefferson Silva é considerado por muitos como o principal responsável por ter impulsionado a fotografia e a observação de aves no Brasil.

Última grande viagem

No final de julho de 2013, Jefferson Silva esteve novamente na África do Sul, desta vez somente para o Parque Nacional Kruger.

O parque é o maior da África do Sul, um dos maiores da África (cobre mais de 19.000 quilômetros quadrados), com 360 quilômetros de extensão e cerca de 65 quilômetros de largura. O local tem vários camps, onde os turistas podem dormir, em uma espécie de pousadas. São vários camps ao longo do parque, e Jefferson passou 8 dias em 4 camps diferentes. Entre os camps, há estradas de asfalto e terra, por onde os turistas podem andar com o próprio carro (ou carro alugado), e então ter a chance de observar os animais do parque.

O parque tem 517 espécies de aves, 147 espécies de mamíferos, incluindo os famosos Big Five (os cinco maiores da África: leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte).

Saiba mais sobre a observação de aves:

A atividade de observar aves, também chamada de passarinhar ou, em inglês, birdwatching e birding, não requer conhecimento prévio ou técnicas de fotografia. Pode ser praticada por qualquer pessoa, de qualquer idade, basta ter paciência e senso de observação. Pode ser feita localmente, no quintal, praça e parque público, ou também em ambientes mais isolados, o que permite observar espécies mais raras em seu habitat natural. Tradicionalmente os observadores de aves usam binóculos. No Brasil, foi criada a prática de observar e fotografar e a grande maioria dos observadores é formada de fotógrafos amadores.

Termos como vocalizar, quando o pássaro emite som (canta, chama) e playback, que é tocar o som do pássaro, com um celular ou aparelho de mp3/mp4 para poder atrair o bicho, são comuns nas caminhadas dos praticantes na observação e fotografia de aves. O binóculo auxilia na busca e pode ajudar a ver detalhes dos bichos, o que permite posteriormente sua identificação, através da pesquisa em guias de observação de aves.

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1 comentário

  1. Leandro Rodrigues Brazuna

    Reportagem bem completa, deu 1 belo panorama da prática e do entrevistado, bem como sua trajetória. As fotos do Jefferson tem muitas cores, e p/ isso basta a sutileza de ser Simples, pois a natureza é colorida em sua essência &: D