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Alagoa

O desafio de Pablo Bucciarelli na Serra da Mantiqueira

Campeão de corrida de aventura supera o desafio de cruzar sozinho a Serra da Mantiqueira, uma das travessias mais difíceis do Brasil. Entre escaladas e corridas, Pablo Bucciarelli atravessa em tempo recorde alguns dos trechos mais acidentados (e lindos) de Rio de Janeiro, Minas Geris e São Paulo.

Pablo Bucciarelli durante travessia da Serra da Mantiqueira (foto: André Dib)

Pablo Bucciarelli durante travessia da Serra da Mantiqueira (foto: André Dib)

Sexta-feira de carnaval, 13 de fevereiro, Sapucaí. Nenhum batuque no ar. O som é o da floresta, que se intensifica à medida que o montanhista de velocidade paulista Pablo Bucciarelli avança pelas trilhas que o levarão por uma das maiores aventuras já realizadas no Brasil. Pablo enfrentou e concluiu a travessia em solitário da Transmantiqueira. Percorreu 397 quilômetros em alguns dos maciços montanhosos mais belos, altos e selvagens do país. E completou com o tempo recorde de seis dias, cinco horas e 20 minutos.

A Mantiqueira, a Serra que Chora, como a chamavam os tupis-guaranis em alusão à chuva copiosa em seus picos e encostas íngremes em boa parte do ano, tinha aceito e acolhido o montanhista corredor solitário. O Capitão Pablo, apelido e uma reverência dos amigos, estava em paz com a serra e consigo mesmo. Na mochila, a travessia de longo curso mais difícil do Brasil.

Pablo é formado em Física pela USP e engenheiro de riscos. Mas se notabilizou como campeão de corrida de aventura e montanhista. Acaba de completar 40 anos, mas tem o esporte no sangue desde os seis. Já jogou polo aquático e futebol de salão. Competiu em natação, judô e tênis de mesa. Mas as montanhas sempre foram as senhoras do seu coração. E a Mantiqueira, lembra ele, o tomou para si de forma avassaladora. Esse foi o desafio da sua vida — ao menos até agora, pois ele sonha literalmente alto.

Pablo percorreu alguns dos territórios mais acidentados e deslumbrantes dos estados de Rio, Minas Gerais e São Paulo. Escalou solo algumas das montanhas mais altas do Brasil, como a Pedra da Mina e a Pedra do Baú, e a arriscada travessia Marins-Itaguaré, lendária entre montanhistas, considerada a com maior dificuldade técnica do país. Ele desceu o Itaguaré à impensável velocidade de 15km/h.

No carnaval, não houve o tamborilar do samba, mas o da chuva onipresente. Breve trégua apenas na passagem pelas trilhas próximas a Campos do Jordão, em São Paulo. A Serra que Chora estava em prantos. Tinha começado a choramingar em Sapucaí, não a Passarela do Samba, mas a Mirim, em São Paulo, um dos pontos iniciais da jornada que partiu de Monte Verde, em Minas. E se tornou copiosa até o fim da Transmantiqueira, na Serra do Papagaio, em Aiuruoca, também Minas, lugar que os índios consideravam mágico por suas muitas cachoeiras em florestas fechadas por virtuosa biodiversidade.

Pablo Bucciarelli durante travessia da Serra da Mantiqueira (foto: André Dib)

Pablo Bucciarelli durante travessia da Serra da Mantiqueira (foto: André Dib)

Percorrer em velocidade a Transmantiqueira foi uma demonstração de performance física sobre-humana. Corridas vertiginosas montanha acima, passagens em mata fechada, pouquíssimas horas de sono. Força, senso de orientação privilegiado e alta capacidade aeróbica são pré-requisitos para este tipo de aventura. Mas, para Pablo, a Transmantiqueira em solitário foi sobretudo uma jornada espiritual e tour de force mental. A serra é a única companheira na maior parte do tempo.

O montanhismo de velocidade é para poucos. E deslumbra muitos. Quando Pablo entrava em algum vilarejo para se reabastecer ou dar a volta em trechos intransponíveis de rocha e mata, pessoas logo o cercavam com curiosidade.

“Não tem medo de onça, não?”, pergunta um morador da Maromba, em Visconde de Mauá.

“Entrou na serra à noite com essa chuva assim mesmo?”, surpreende-se um senhor em Aiuruoca.

A lógica e o foco da ciência aprendidos na física e na engenharia, ele usa no planejamento. Como nas palestras que frequentou no Instituto do Sono, para aprender como descansar o mínimo com o máximo de recuperação. Mas Pablo é, sobretudo, uma pessoa espiritualizada. Não é religioso no sentido restrito. Sua fé está na Terra:

“Amo esta serra e me sinto acolhido por ela. Meu coração pertence à Mantiqueira.”

Um amor antigo que se tornou mais forte depois que se separou, em 2009. Um período difícil por não estar mais tanto tempo com os filhos e que o fez repensar a vida:

“Parei uns dez meses. Mas em 2010 voltei a competir em aventura. Saí do zero para primeiro do ranking nacional em 2011. No ano seguinte, porém, abandonei uma prova no meio e vi que precisava de um desafio maior.”

E assim começou sua história nas travessias de longo curso. E em 2015 buscava o desafio na serra que mais adora. E, por amá-la, pretendia também chamar a atenção para a necessidade de preservar a Mantiqueira, berço de muitas águas, tão necessárias nestes tempos de seca recorde no Sudeste.

Na Serra Fina, em Minas, Pablo correu por cristas estreitas com mais de dois mil metros de altura e alguns poucos de largura — daí o nome do lugar. No Vale do Ruah, perto dali e longe do restante do mundo, encarou o frio, a neblina e a desorientação, num terreno que parece um campo minado com todo tipo, formato e tamanho de pedra.

O calor sufocante esteve presente em algumas das matas, durante o dia. Nos campos de altitude do Parque Nacional de Itatiaia, a neblina e a chuva bloquearam a visibilidade num solo igualmente cheio de pedras e varrido pelo vento. O Vale do Campo Belo, descobriu-se há pouco, é o lugar mais frio do Brasil. Isto à noite. De dia, o sol da montanha penetra e queima a pele. Nada que tenha impedido Pablo de chegar ao alto da Pedra do Altar, bem em frente às Agulhas Negras. E de lá ganhar velocidade por trilhas ora de montanha exposta ora de floresta até a Maromba, em Visconde de Mauá, um de seus lugares favoritos.

Pablo chegando na base do Marins na madrugada de domingo (foto: André Dib)

Pablo chegando na base do Marins na madrugada de domingo (foto: André Dib)

Na Maromba, suportou extremos de frio e calor. E superou as incertezas de algumas das florestas mais exuberantes da Mata Atlântica, onde a escuridão da noite é entremeada por sons de animais, como as onças-pardas. Não são histórias de matutos. Na mesma noite em que Pablo entrou na floresta, um caminhoneiro da região contava como havia parado para dar passagem na estradinha de terra a uma onça e seus dois “oncinhos”, que de tão pequenos pareciam recém-nascidos.

Na travessia, Pablo tentou superar — e conseguiu — a que havia feito em dupla, em 2013, com o amigo Pedro Alex, que hoje faz doutorado em Antropologia no Peru. Escolheu a mesma época chuvosa, a menos propícia do ano para realizar uma empreitada na Mantiqueira. Escolha que surpreendeu seus amigos e muitos apreciadores de aventura que acompanharam a jornada ao vivo pela web no portal Extremos, do também aventureiro e membro da Caravana Transmantiqueira, como gosta de chamar, Elias Luis.

“Queria repetir o mesmo desafio. Superar dificuldades. Encontrar respostas”, diz ele.

Desta vez, Pablo contou com uma equipe de apoio, presente em lugares restritos. Eram seus anjos da guarda. Chegavam antes dele em pontos de transição, cuidavam da comida, do equipamento, das roupas, de onde poderia descansar. Durante toda a travessia, dormiu apenas 18 horas. Seu principal “anjo”, Vinícius Moysés, responsável pela logística do atleta, dormiu menos ainda. Ele antecipava cada necessidade de Pablo e sequer permitia que dormisse mais do que o combinado.

“Você tem que trocar esse tênis e levar mais comida”, dizia Vinícius.

Na única vez que ignorou os conselhos de Vinícius, também treinador de corrida de aventura, Pablo passou um sufoco na Serra Fina, que é tão bela quanto hostil. Mas ele já a atravessara tantas vezes que se sentia em casa. Queria correr o mais leve possível. E dispensou um lanche extra e a lanterna de cabeça — quem faz trilha sabe que ela é irmã. Veio a neblina e com ela, o frio e a desorientação. Chegou a noite e ele teria ficado perdido no escuro.

“Foi um massacre. Sofri demais, vítima da autoconfiança. Fiz em muito mais tempo do que pretendia e só saí de lá porque encontrei uns meninos de São Paulo acampados que me emprestaram uma lanterna. Foi um aprendizado. Subestimei a serra. Precisamos dessas lições de humildade”, conta.

Pablo durante a travessia no Parque Nacional de Itatiaia (foto: André Dib)

Pablo durante a travessia no Parque Nacional de Itatiaia (foto: André Dib)

O cansaço era mais mental do que físico. Sentiu que precisava descansar um pouco. Até porque tinha tempo. Mesmo com os percalços, esteve sempre à frente do horário programado. E terminou o desafio quase um dia e meio antes dos oito planejados.

Ali mesmo, num canto protegido da chuva, perto da Cachoeira do Escorrega, parou para dormir um pouco. Vinha descansando dentro do planejado. E isso, segundo ele, o ajudou a ter melhor desempenho. Outro fator fundamental foi a equipe de apoio. Diferentemente da aventura de 2013, quando ele e o parceiro não tinham nenhuma ajuda, desta vez não precisava se preocupar com água, comida e local para transição, nem onde trocar roupa, tênis e mochila.

Porém, mesmo com a equipe afiada e dedicada, que passou por literais apertos, como dormir no carro em atoleiros e pernoitar sob um toldinho na Garganta do Registro, foi essencial a determinação entre os lados racional e espiritual de Pablo:

“Você tem que se entregar a essa terra. É assim que ela lhe dá o que tem de melhor.”

E Pablo se entrega.

“Ele corre muito melhor na montanha, no isolamento, do que quando está perto de vilarejos ou em estradas rurais”, avalia Lucas Abdalla Lima, responsável pela alimentação de toda a equipe e dono da empresa de aventura Vale Radical, que patrocinou Pablo.

A mesma opinião tem Vinícius:

“Nem se compara, ele rende mais na trilha. Sua ligação é com a natureza.”

Esta ligação se fez sentir com mais intensidade ao sair de Fragária, um vilarejo perdido entre Itamonte e Aiuruoca, ambos em Minas:

“Estava muito cansado. Parei para descansar um tempo. Acho que não mais do que cinco minutos. Foi o suficiente. Abri os olhos e o sol começava a nascer. Senti a magia do amanhecer na Mantiqueira. Fui acordando com a floresta. Fiquei tão conectado… Fazia parte daquilo. Amanhecia com a montanha. Foi um momento de paz. Me senti abraçado pela Mantiqueira.”

Pablo saindo de Alagoa (foto: André Dib)

Pablo saindo de Alagoa (foto: André Dib)

A aventura terminou na Serra do Papagaio, último trecho selvagem antes da chegada a Aiuruoca. Pablo não conhecia essa serra e enfrentou perigos que não esperava, como ter que andar com água na altura da cintura na parte baixa da serra, afogada de tanta chuva. A vegetação fechada e encharcada era quase intransponível. O joelho machucado por alguma pedra perdida no caminho à noite começava a incomodar. Mas era uma parte muito aguardada, uma serra venerada pelos índios que um dia a habitaram e que até hoje é cercada por lendas.

“Estava com muito sono. Decidi subir para a parte mais alta. Fui até a sede do parque, tomei um banho, comi alguma coisa e conversei com um grupo de geólogos que estava por lá”, conta.

“Eles me deram algumas instruções e voltei para o mato na madrugada. Foi uma descida lenta, sofrida, pelo desconhecido.”

Leia mais sobre a Serra da Mantiqueira

A jornada pela serra alagada e escorregadia demorou mais do que o esperado e deixou a equipe que já o aguardava em Aiuruoca preocupada. Mas por volta das nove da manhã ele despontou no alto da serra e começou a descida para a cidade:

“O desafio extremo me motiva. Nas serras Fina e do Papagaio, encontrei as maiores dificuldades. E a maior magia. Foi um desafio de vida. Encontrei respostas para muitas perguntas.”

Ao chegar à igreja de Aiuruoca, jogou-se nos degraus e chorou agradecido:

“O corpo está castigado. Mas o espírito flutua. Esta é a magia.”

No fim da jornada, sentia-se agradecido à Mantiqueira e aos amigos:

“Não gosto de sofrer. Mas preciso conhecer meus limites. Precisamos aprender a nos superar. O caminho nunca é fácil. Sou grato a Deus. Meu desafio é encontrar a paz do corpo e do espírito.”

Pablo Bucciarelli na chegada no centro de Aiuruoca (foto: André Dib)

Pablo Bucciarelli na chegada no centro de Aiuruoca (foto: André Dib)

De olho nos passos do aventureiro

Para percorrer a Transmantiqueira, Pablo Bucciarelli contou com uma forte e unida equipe de apoio. A logística ficou a cargo de Vinícius Moysés. Ele cuidou de cada detalhe de descanso, troca de roupa, cuidados médicos, percurso, cronometragem do tempo.

Dono da Treine Certo Assessoria Esportiva e Eventos, no Espírito Santo, ele foi o principal anjo da guarda de Pablo. Lucas Abdalla Lima, da Vale Radical, que patrocinou a expedição, cuidou da alimentação. A logística de transporte da equipe coube a Bruno Zanini Netto, proprietário da Rota da Aventura. Pablo foi fotografado por André Dib e os vídeos são de autoria de Cassandra Cury e de Samuel Oscar, do Drone da Montanha. Os três tinham sempre que se antecipar a Pablo, para captar suas imagens em lugares particularmente importantes.

O treinamento de Pablo foi realizado por Daniel Franquin, também corredor de aventura e diretor da Aksa Outdoor Sports. O escalador e highliner Luiz Milan foi responsável pela segurança da parte vertical da travessia. A transmissão online ficou a cargo de Elias Luiz, editor-chefe do portal Extremos, especializado em esportes radicais e aventura.

Leia relato da equipe que apoiou Pablo na travessia

Do Globo +

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