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Queimadas e estiagem: a verdadeira crise

O caso da crise hídrica no sudeste brasileiro é uma amostra perfeita da crise que realmente devemos temer e evitar

Por LF Cesar
Do Ambiente Regional

Sempre que recebo notícias de crises econômicas penso em qual é o elemento gerador da crise. Geralmente essas crises são de ordem especulativa, jogadas no mercado financeiro que muitas vezes se motivam por interesses políticos ou oportunidades de ganhos de capital.

No entanto, ainda que tais situações sejam fabricadas por alguns setores da sociedade, suas consequências tem ampla repercussão, causando prejuízos e sofrimentos para muitos e possibilitando poder, lucros e vantagens para poucos.

Tantos impactos decorrentes de decisões do mundo da especulação financeira acabam mascarando os fatores que realmente podem causar crises no mundo físico e, por consequência, afetar a sociedade de forma muito mais contundente.

O caso da crise hídrica no sudeste brasileiro, repercutindo em especial na cidade de São Paulo, é uma amostra perfeita da crise que realmente devemos temer e evitar.

Por mais tecnologia que se desenvolva, somos dependentes da natureza e das condições ambientais do planeta. No Brasil, ao contrário de países que aprenderam a conviver com a escassez, temos praticado a cultura do desperdício, baseada na ilusão de permanente abundância dos recursos que os ecossistemas produzem. O mesmo pensamento tem sido aplicado ao uso da terra, como se o território fosse um bem com limites elásticos e em crescimento permanente.

Incêndio no maciço Marins-Itaguaré em 19/10 (Foto Tiaraju Fialho)

Incêndio no maciço Marins-Itaguaré em 19/10 (Foto Tiaraju Fialho)

A forma de exploração predatória da grande maioria das florestas do planeta é o exemplo perfeito. No caso do Brasil, desde a chegada dos portugueses as florestas vêm sendo destruídas sem trégua, destruição incomparavelmente maior do que os louváveis casos de replantio ou de regeneração natural. A tragédia da mata atlântica vem se repetindo na Amazônia e no cerrado, como se nada houvesse o que aprender com a história recente que transformou grandes contínuos florestais em pequenas ilhas, dizimou a fauna e afetou gravemente a dinâmica de tantos rios brasileiros.

A relação entre florestas, água e clima é reconhecida há séculos e confirmada pela ciência moderna. O aumento da demanda de água pelas grandes cidades, indústrias e agricultura é uma realidade incontestável. A redução da recarga dos mananciais e reservatórios nos últimos anos é um fato. Mas apesar desses elementos concretos da realidade, o desmatamento da Amazônia prossegue, a fronteira agrícola se expande no cerrado, as unidades de conservação perdem recursos, os incêndios florestais incineram campos, árvores e animais, a legislação ambiental é flexibilizada, margens de rios e áreas de recarga são ocupadas irresponsavelmente.

A serra da Mantiqueira, fundamental para suprir parte das bacias hidrográficas do Paraíba e do Paraná, também vem sofrendo. Já se tem notícias de incêndios ocorridos nos parques de Pedra Selada, Serra do Papagaio e Campos do Jordão. O Monumento Natural do Itaguaré, na face nordeste do Pico dos Marins, começou a queimar ontem (19/10) e se não fosse a chuva providencial dessa noite mais uma operação de combate deveria ser deflagrada. Brigadistas, voluntários, funcionários dos parques e bombeiros, muitas vezes com apoio de aeronaves, atuaram intensamente nas últimas duas semanas em diversas áreas protegidas da região sudeste, já demandando revezamento de equipes. E se não chover mais e com maior regularidade a situação de alto risco permanece. Com todos esses recursos envolvidos, é fácil imaginar o altíssimo custo das operações de combate aos incêndios, sobretudo em áreas montanhosas, que mobilizam gente, equipamentos, logística de alimentação e transporte, veículos e aeronaves, além do incalculável prejuízo em perdas ambientais, fauna, flora e, naturalmente, água.

A falta de água, por sua vez, resulta numa escalada de consequências, desde o desconforto de não ter água em casa até manifestações, perda de safras agrícolas e ameaça ao funcionamento de usinas hidrelétricas, principal matriz energética brasileira.

Essa combinação constitui a verdadeira crise que pode de fato desestruturar a sociedade.

Depois de quatro anos de quase imobilidade o governo federal criou seis unidades de conservação e ampliou duas já existentes, somando 257,7 mil hectares de áreas protegidas. A notícia é boa, mas segundo o WWF, a lista das áreas que deveriam receber semelhante tratamento soma 27 milhões de hectares. Esse é o número que garantiria tornar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação representativo de todos os biomas brasileiros. “Além disso, precisamos incrementar o orçamento anual para manejo das UCs federais em R$ 188 milhões e regularizar pelo menos dois milhões de hectares de passivo fundiário em UCs prioritárias”, lembra o superintendente do WWF-Brasil.

Começando pelas crises do sistema financeiro, passando pela crise climática e chegando na desproporção entre o alto valor dos ecossistemas e o baixo investimento na proteção da natureza brasileira, resta esperar que os dados da realidade despertem os governos para investirem de forma decisiva no patrimônio que permite a existência de todos os outros bens da sociedade: o meio ambiente.

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