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São Thomé das Letras enfrenta poluição e urbanização descontrolada

São Thomé das Letras com apenas 7 mil habitantes começa a ter ares dos grandes centros. Cidade turística e esotérica enfrenta poluição visual e sonora e urbanização descontrolada.

Município atrai muitos turistas graças às suas casas e ruas de pedras repletas de histórias e lendas, inclusive sobre avistamentos de objetos voadores não identificados

São Thomé das Letras atrai muitos turistas graças às suas casas e ruas de pedras repletas de histórias e lendas, inclusive sobre avistamentos de objetos voadores não identificados (foto: Jefferson da Fonseca Coutinho)

Já não é mais a pirâmide do Parque Municipal Antônio Rosa o ponto mais alto de São Thomé das Letras, no Sul de Minas. O topo agora pertence às antenas de telecomunicações, que arranham as nuvens a cerca de 1,5 mil metros de altitude. Os artesanatos raros, produzidos pelos hippies e expostos nas ruas de pedra, agora enfrentam a concorrência de produtos chineses, que se multiplicam na mística cidade, de apenas 7 mil habitantes. A voz e o violão, vez por outra, é abafada pelos automóveis que esgoelam funk. Nas pedreiras, o concreto avançou voraz na paisagem e já tem até varandão cobrindo o horizonte. O Estado de Minas passou dois dias em São Thomé das Letras, reduto de esotéricos, a pouco mais de 300 quilômetros de Belo Horizonte. E constatou que a cidade carece do respeito de outrora, a começar pelo portal de boas-vindas pichado.

A reportagem encontrou turistas e moradores de histórias singulares com o lugar. Gente nascida na região e gente que, de passagem, tomada de encantamento, decidiu ficar. Em grande maioria, artistas de vida simples, entusiastas da liberdade, da paz e do amor. Mas junto do asfalto, os males que o acompanham: a intolerância e a violência. Até casos bestas, de trânsito, estão nas ocorrências do feriado passado. E ainda confusão de ciúme e relatos de casos de tráfico de drogas. “Outro dia mesmo, dia de semana, dois policiais à paisana subiram o parque atirando nos traficantes. As crianças tiveram que se jogar no chão. Tem uma São Thomé dos turistas e tem uma São Thomé de todos os dias”, lamentou o morador, que pediu para não ser identificado.
No fim da noite de domingo, o carro da turista estacionado na esquina de um bar e pizzaria, ocupando espaço que, segundo a comerciante, seria para mesas e cadeiras, foi motivo para desentendimento que rendeu tabefes, safanões e viatura policial. “Coisa feia: duas mulheres saindo na mão”, disse a testemunha. Cena inimaginável para quem conheceu a São Thomé dos anos 1980 e 1990.

Outro ponto negativo são os sinais da falta de educação espalhados por vários pontos da cidade. Há sujeira em lugares de visitação, nas trilhas e pelos caminhos do Parque Antônio Rosa. Garrafas, sacos plásticos e papéis comprometem a natureza tão particular do município. Nem a pequena imagem de São Thomé, na gruta ao lado da igreja que dá nome ao santo e à cidade, está livre da falta de respeito. No altar, a latinha de cerveja faz companhia às velas.

As motocicletas tomaram o lugar dos cavalos. E o turismo crescente das duas últimas décadas promoveu um festival de puxadinhos em casas de quartzito. No alto, filtros de sonho nas janelas se destacam em meio às antenas nos telhados. Os cigarrinhos proibidos, pitados nas quebradas, já são enrolados às claras, na frente das crianças e das autoridades, na Praça Barão de Alfenas. Diferentemente de outros tempos, vê-se nas esquinas, com frequência, quem passou da conta na bebida ou no entorpecente. O carro vermelho, da vizinha Três Corações, é metade alto-falantes, metade dois bancos e motor. Os dois jovens ocupantes, caricatos, de bonés e camisas coloridas, não se importaram com a faixa dizendo “É expressamente proibido som automotivo”.

Casos de violência já preocupam moradores e turistas do pequeno município

Casos de violência já preocupam moradores e turistas da pequena São Thomé das Letras (Jefferson Fonseca Coutinho)

‘VIAGEM’ NO TEMPO

Como no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, basta esperar a noite para “viajar no tempo” em São Thomé das Letras. Nos bares e quebradas, é possível ouvir clássicos nacionais e internacionais, interpretados por grandes artistas que decidiram tirar das letras a canção Sociedade alternativa, do “maluco beleza” Raul Seixas. Lendas que ajudam a manter o que há de melhor na cidade, como os cantores Ventania, Tibilk e Billy das Letras. Dos três, Tibilk é nascido na região. Ventania e Billy são de São Paulo, mas já fincaram raízes no povoado. O trio, cada um com a sua banda, é grande atração nas noites de São Thomé. Não apenas pelas releituras de Beatles, Rolling Stones, Nirvana, Bob Dylan, The Who, Led Zeppelin, entre outros, mas, especialmente, pelas canções próprias.

Na madrugada de encontro com as três forças da arte e da cultura de São Thomé, não havia espaço para confusão. No restaurante e camping Bar do Jhonny, na zona rural, cerca de 200 “malucos” reviraram a noite em ritmo de paz e amor. Boa parte do público já sabia de cor as músicas autorais de Ventania, Tibilk e Billy. Além da poesia aos montes, sexo, drogas e rock and roll são levados com irreverência pelos três vocalistas e seus instrumentistas. Primeiro, foi a banda de Billy: “As loucurinhas de meu Deus e os derivados da natureza”. Em seguida, Tibilk roubou a cena com o Hino de São Thomé. Ventania, a principal atração do pedaço, autor de Só para loucos e Cogumelos azuis, tomou conta da madrugada.

Do Estado de Minas

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2 comentários

  1. Letícia Gióia

    Oh bela e rica São Thomé, até em tú a Babilônia desenfreada chegou

  2. Alessandra Martins Ledhuar Miguel

    Moro em São Thomé das Letras faz 7 anos e definitivamente essa matéria é incoerente, o comércio cresceu sim, tem casas aos montes sendo construída, mas essa violência toda relatada na matéria não existe, aqui é um lugar maravilhoso para se viver e cheio de belezas naturais e pessoas receptivas e bondosas, o turista é bem tratado desde que ele tenha postura, os vândalos que picharam a entrada da cidade são um exemplo do nível de certas pessoas que só veem aqui para destruir, nós que moramos aqui estamos sempre zelando pela cidade, qto a produtos da china isso é no mundo todo, já fui artesã e são poucas pessoas que dão valor no que a gente faz, são os turistas que preferem pagar mais barato e quem tá aqui se vira como pode. Achei a matéria desnecessária e mentirosa!!!