Edição
Edição
Sulminas146

Destaque no Sulminas146

Seca desafia abastecimento de água no Vale do Paraíba

A seca vem resultando no desaparecimento de nascentes. Mananciais e reservatórios de cidades do Vale do Paraíba estão com seu volume abaixo do esperado.

Do Ambiente Regional

A seca especialmente intensa que atinge o sudeste brasileiro já afeta mananciais da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. A situação traz à tona desafios vitais para uma sociedade acostumada à abundância de água, em especial no caso de cidades que têm suas captações nos rios que vertem da Serra da Mantiqueira, montanha reconhecida por sua riqueza em chuvas e cursos de água.

O nome indígena Mantiqueira pode ser traduzido por “lugar onde nascem as águas” ou “serra que chora” devido às muitas nascentes e cursos d’água que nela se originam e ajudam a formar duas grandes bacias hidrográficas brasileiras: Paraná e Paraíba do Sul. Além dos municípios da face mineira da serra, suas águas abastecem as pequenas cidades e os grandes centros urbanos do Vale do Paraíba paulista e a maior parte da população do estado do Rio de Janeiro, além de constituírem um importante contribuinte do Sistema Cantareira, que abastece a Região Metropolitana de São Paulo.

Mas a falta de chuvas vem resultando no desaparecimento de nascentes. Mananciais e reservatórios de cidades do vale do Paraíba estão com seu volume abaixo do esperado, mesmo para a época de seca.

Estudos científicos indicam a relação entre a floresta amazônica e as chuvas. Diariamente, 20 bilhões de toneladas de litros de água evaporam da Amazônia formando ”rios voadores”. Essas correntes invisíveis de ar carregam umidade da bacia amazônica para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Com o desmatamento da Amazônia, constata-se o desequilíbrio desse sistema, o que acarretaria escassez de chuva em todo o Vale do Paraíba. “Essas chuvas que ocorrem principalmente durante o verão, a umidade é oriunda da Amazônia. E essa chuva que fica vários dias é que recarrega os principais reservatórios da Região Sudeste.” explica Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe, em matéria para o Site G1, na Edição do dia 31 de agosto de 2012.

Mas a perenidade de córregos e rios não é garantida apenas pela chuva. Fatores como altitude, temperatura, uso do solo e vegetação são determinantes para o estabelecimento de uma dinâmica ao longo do ano. Normalmente, a boa condição do ecossistema de mata atlântica característico do Vale do Paraíba garante a retenção natural de parte da água durante o período chuvoso e sua gradativa liberação, o que se reflete na perenidade dos mananciais mesmo no período de seca.

Comparação entre o nível normal do Rio Batedor, em Cruzeiro, com o atual ( Foto: Divulgação/ Prefeitura de Cruzeiro)

Comparação entre o nível normal do Rio Batedor, em Cruzeiro, com o atual ( Foto: Divulgação/ Prefeitura de Cruzeiro)

Neste ponto, pode-se perceber que o Vale já não sustenta a abundância do passado. A crise da água atinge a região e isso se deve também a outros fatores, como falhas no sistema de distribuição, falta de fiscalização, desperdício no consumo direto, ocupação imprópria de áreas de nascentes e margens de rios e carência de medidas de recuperação de áreas degradadas, além dos incêndios florestais que se multiplicam nessa época.

A Sabesp, concessionária estadual de serviços de saneamento básico de São Paulo, informa que São José dos Campos e Pindamonhangaba não apresentam grandes problemas de abastecimento, mas em nota afirma que os mananciais de abastecimento se encontram com queda na vazão devido à falta de chuvas e às altas temperaturas.

O caso da cidade de Cruzeiro retrata bem a situação. Com seu abastecimento de água potável dependendo integralmente de captação junto a Serra da Mantiqueira e tendo perdas que chegam a 66%, o município pediu ajuda à população e chegou a decretar estado de emergência. Em nota, o Diretor Geral do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), Maximiliano Rubez de Castro relata: “De dois meses para cá a vazão de captação do Rio Batedor vem caindo assustadoramente. De 230 litros, a vazão caiu para cerca de 180 litros em agosto, despencou para 155 litros em setembro e agora, em outubro, recuperou um pouco em decorrência de poucas chuvas e está no patamar atual de 165 litros de água por segundo. Tal quadro implicou, logicamente, no total desequilíbrio no abastecimento hídrico de nossa cidade”. O diretor aguarda as chuvas previstas até o final do mês para restabelecer a quantidade de água e considera a possibilidade de captar água de uma fonte secundária, que seria o rio Paraíba do Sul.

Com perdas no patamar de 42% a cidade de Guaratinguetá realiza sua captação no ribeirão Guaratinguetá. Segundo a assessoria da SAEG, Companhia de Serviço de Água, Esgoto e Resíduos do município, manutenção de equipamentos e limpezas constantes da entrada da captação de água vem sendo efetivadas com objetivo de evitar problemas de abastecimento.

A falta de chuva e o volume abaixo do normal dos reservatórios chama atenção para a urgência de medidas que possibilitem a recuperação de áreas degradadas, visando a produção de água. O pagamento de serviços ambientais, chamado PSA, é uma das alternativas para a preservação da mata ciliar e a recarga das nascentes. Com o PSA, produtores rurais são remunerados por proporcionar condições para a natureza produzir água, oxigênio, controle natural de pragas, conforto do clima e estabilidade do solo contra erosão, entre outros serviços ecossistêmicos.

Enquanto a chuva não vem, campanhas alertam a população para reduzir o consumo de água e medidas paliativas vão sendo adotadas pelos setores responsáveis por fazer a água chegar aos moradores. Alguns municípios, organizações socioambientais e particulares promovem ações de recuperação de florestas, mas em escala ainda muito tímida frente à gravidade da crise.

Conservar e restaurar as matas nativas é imprescindível para a proteção de áreas estratégicas, garantindo assim um maior volume e, sobretudo, regularidade na produção de água da região. Água farta e disponível implica em Políticas de Estado voltadas para segurança hídrica, que devem ser efetivadas pelo governo e cobradas pela população.

Acompanhe Sulminas146 no Twitter e no Facebook.

Seja o primeiro a comentar