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Serra Fina é ameaçada por lixos e degradação de trilhas

O uso irresponsável das trilhas da Serra Fina vem causando degradação ambiental. Montanhistas e ambientalistas informam que novas trilhas e áreas de camping são abertas sem critério e o volume de lixo indica um intenso fluxo de pessoas e o que é pior: despreparadas para frequentar ambientes naturais.

A Serra Fina é um dos maciços da Serra da Mantiqueira, área montanhosa que se estende ao longo de quase 400 quilômetros entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, chegando até a região de Visconde de Mauá, no estado do Rio de Janeiro. A travessia do maciço onde se localiza a Pedra da Mina, ponto culminante do estado de São Paulo, costuma ser feita em quatro dias e não existe qualquer tipo de controle dos visitantes, embora passe por áreas privadas dentro de uma Unidade de Conservação Federal de uso sustentável, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra da Mantiqueira. Uma das consequências visíveis do uso desordenado é a infestação por ratos “gordos e enormes”, nas clareiras abertas para acampamentos, segundo uma visitante. Os animais são atraídos pelos restos de comida e até de fezes, procriam e acabam impactando fortemente a fauna e a flora locais ao competirem com vantagem sobre outras espécies menos oportunistas na busca por alimento e abrigo.

Outro fator de degradação recentemente denunciado é a realização de corridas de montanha, que reúnem centenas de atletas passando por trilhas da região. Apesar da imagem de ser um esporte de natureza, que deveria ser aliado da conservação, as corridas em ambientes montanhosos podem causar impacto significativo, devido à grande quantidade de pessoas num ecossistema extremamente frágil. Pisoteamento de plantas, erosão, afugentamento de animais silvestres e resíduos, são alguns efeitos dessas atividades. Como agravante do quadro de descontrole da atividade e com elevado potencial de impacto ambiental está a abertura de dezenas de quilômetros de novas trilhas na Serra Fina, em áreas acima dos 1800 mts, em terrenos com solo e vegetação extremamente frágeis, com elevada declividade, e o que é mais grave, em áreas legalmente protegidas (Áreas de Preservação Permanente segundo o novo Código Florestal).

Lixos e trilhas ameaçam a Serra Fina (foto: Ambiente Regional)

Lixos e trilhas ameaçam a Serra Fina (foto: Ambiente Regional)

Além disso, a repercussão dessas provas amplia a divulgação desses destinos nas redes sociais e mídias vinculadas com esportes e montanha, impulsionando novos visitantes para a região. Uma alternativa apontada por especialistas é a realização dos eventos em territórios com maior capacidade de carga, como trilhas em bairros rurais, morros de menor altitude, estradas rurais e similares.

Enquanto o plano de manejo e o zoneamento da APA da Serra da Mantiqueira não definem critérios para a atividade, os especialistas consideram sensato estabelecer uma moratória nas autorizações para a realização de provas esportivas nas trilhas altas da Serra, até que se faça um diagnóstico completo da atividade e do seu impacto dessa sobre os ambientes nos quais se desenvolve, um diagnóstico ambiental e caracterização das trilhas, além de estudos de capacidade de carga e, a partir daí, o estabelecimento de parâmetros para mitigação e compensação dos impactos diretos e indiretos desse tipo de uso do espaço legalmente protegido.

Soraya Martins, analista ambiental licenciada da APA Federal da Serra da Mantiqueira, considera fundamental aprofundar essa discussão e lembra que, “quando o ICMBio recuou da proposta de criação de um parque nacional na região da Serra Fina, o discurso dos proprietários, apoiados por vários membros do Conselho Consultivo da APA, o Conapam,  foi que poderiam proteger a região por conta própria. O Conapam tem agora a responsabilidade de trazer para o Plano de Manejo as restrições necessárias para garantir o equilíbrio dos processos ecológicos e dos serviços ambientais da região da Serra Fina. Isso não é pouco, requer vontade política e conhecimento de causa. O zoneamento é uma ferramenta fundamental, que deve somar-se ao compromisso dos proprietários, dos montanhistas, do ecoturismo local, dos estados e dos municípios.”

O maciço da Serra Fina possui muitos acessos, o que dificulta o controle da sua utilização. O fato de se localizar na Mata Atlântica, dentro de uma APA Federal, em território de três Estados, e em áreas particulares, implica em diversas instâncias administrativas e vários grupos de interesse envolvidos. No entanto, todos concordam que somente o uso responsável pode garantir a proteção do ecossistema.

Do Ambiente Regional

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