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Taxista conquista moradores com sonho de ser cineasta no Sul de Minas

Filmes locais ganham até versão em DVD em Conceição dos Ouros. Na ‘Hollywood’ sulmineira, a próxima estrela pode estar atrás de um balcão.

Do G1

Aos 56 anos, taxista se mantém firme no sonho de levar os costumes do Sul de Minas para a grande tela (Foto: Daniela Ayres)

Aos 56 anos, taxista se mantém firme no sonho de levar os costumes do Sul de Minas para a grande tela (Foto: Daniela Ayres)

Na pequena lanchonete ao lado da Praça José Maria de Souza, no Centro de Conceição dos Ouros, no Sul de Minas, um cartaz anuncia que ali o filme “Andarilho” pode ser adquirido em DVD ao custo de R$ 10. Esse é o último lançamento de uma incipiente produção cinematográfica sulmineira. Há pelo menos cinco anos, o sonho de ser cineasta de um taxista tem mobilizado a cidade, onde os pouco mais de 11 mil habitantes acabam apoiando a iniciativa de alguma forma. Alguns dão palpites, outros fazem questão de estar presentes nas estreias e há aqueles que se propõem a compor o elenco ou mesmo levar para casa um DVD.

Maria Angélica de Carvalho Campos, por exemplo, guarda em casa pelo menos dois dos quatro filmes já produzidos na sua cidade. A comerciante diz ter vergonha de aparecer na tela, mas gosta de frequentar as já tradicionais “sessões-pipoca” e comprar as versões em DVD.

“Acompanho desde o primeiro filme e eu acho que estão progredindo. O primeiro estava bem fraquinho, mas depois foi evoluindo, os atores foram ficando melhores. Os filmes mostram muito a parte antiga, a cultura antiga, como foi o passado da cidade e da região e eu gosto muito”, avalia.

Era setembro de 2009, quando a primeira produção estreou no cinema improvisado na Avenida Coronel Domingos Rosa. Foram 12 dias de sessão no espaço cultural do município e mais de 2 mil pessoas se revezando no salão para assistir “O Massacre da Fazenda Pedregulho”. Uma emoção que Adão Alves Corrêa, de 56 anos, está longe de esquecer.

“As pessoas faziam fila ali, onde um dia já foi nosso cinema, onde, quando criança, eu ia assistir escondido os filmes do Mazzaropi, porque a gente nem sempre tinha dinheiro para o ingresso”, conta.

Adão é o idealizador dessa pretensa “Hollywood” sulmineira. Em horário comercial, ele cuida do seu táxi e investe em uma pequena produção de picolés. Aos domingos, quando em fase de gravação, ataca de diretor e roteirista, corre atrás de apoio, pede ajuda aos amigos para aprimorar a edição das filmagens. Em meio a tudo isso, concilia o sonho com a família. “Ela não gosta muito dos filmes”, comenta lançando um olhar denunciador para a esposa Lourdes, que, entre risadas, reconhece possuir uma queda a mais pelo que ela chama de “filmes americanos”.

Com 4 títulos lançados em 5 anos, ourense se prepara para produzir novo filme (Foto: Daniela Ayres/ G1)

Com 4 títulos lançados em 5 anos, ourense se prepara para produzir novo filme (Foto: Daniela Ayres/ G1)

‘Hollywood’ sulmineira

Foi por causa da televisão que Adão vislumbrou pela primeira vez a possibilidade de tornar real um sonho de infância. “Sempre adorei filme, mas filme brasileiro, filme que fala de coisas da gente”, conta. “Então eu vi em um programa de tv um homem lá do Norte do país que resolveu fazer um filme. Eu pensei: ‘se ele pode, eu também’, mesmo que eu não tenha o dinheiro que Hollywood tem”, brinca o determinado diretor.

De fato, no mundo cinematográfico de Adão, entre lavouras de mandioca e o pó branco do gesso que se espalha em parte da paisagem, não há espaço para megaprodução ou cachês milionários como na famosa cidade norte-americana. Na verdade, não há sequer cachê. A próxima estrela de um filme genuinamente ourense pode ser o médico que passou a semana atendendo no postinho de saúde ou a gentil balconista que lhe vende o biscoito gostoso da padaria. Todos voluntários. Todos apaixonados pela sétima arte, assim como o taxista de cabelos grisalhos.

Alexandre Viana, de 23 anos, é fisioterapeuta e um dos “atores” das filmagens nas horas vagas. Ele conta que se ofereceu para integrar a equipe. “Eles já estavam filmando ‘O Massacre da Fazenda Pedregulho’ quando eu soube. Então eu fui lá e disse que queria fazer alguma coisa, qualquer coisa, e aí eu consegui uma pontinha já no final da história”, relembra Alexandre, que nas produções seguintes conquistou papéis com maior destaque.

O caso do fisioterapeuta não é isolado. A maior parte do elenco chegou assim, por vontade própria. Flávia Alves dos Santos, por exemplo, levou um tempinho maior para criar coragem, mas também decidiu apostar nas produções. “O Adão já tinha gravado dois filmes. Eu soube e me ofereci. Participei do terceiro, ‘Jordão, O Justiceiro’, e agora do ‘Andarilho’, como a filha que quer vingar a morte do pai”, relata a professora de 25 anos.

E se um novo integrante pode surgir a qualquer momento, fica claro que definir um roteiro pode ser um desafio bem mais difícil de se superar do que a falta de orçamento. É aí, no entanto, que talvez esteja o principal ingrediente que cativa espectadores e elenco. “A gente só sabe o que vai fazer na hora. Ninguém recebe roteiro antes”, revela animadamente Alexandre.

“Eu não posso exigir a presença de ninguém, porque eles não são pagos. Agora, e se eu defino a fala de uma pessoa e ela não aparece? Tem que pensar em tudo isso”, ensina o esperto Adão.

Um homem com ideias

Tendo como importante referência a filmografia de Amácio Mazzaropi, o taxista-cineasta não esconde que busca inspiração no ídolo paulistano para compor seus enredos cheios de coronéis, disputas e personagens típicas do universo interiorano, aproveitando todas as oportunidades para registrar a rica e aconchegante arquitetura da região.

“Eu faço gravações aqui em Conceição dos Ouros, em Cachoreira de Minas (MG), em Paraisópolis (MG)”, observa. “O trem que aparece no ‘Andarilho’ foi filmado em São Lourenço (MG). Pessoas de várias cidades participam das filmagens, porque eu quero que esses filmes também mostrem a nossa cultura, as nossas paisagens, os nossos costumes. E já planejo o próximo, que será em Aparecida do Norte (SP), na basílica de Aparecida”, diz.

Rumo ao quinto filme, Adão não economiza esforços. Costura o enredo aqui e amarra um personagem ali para incluir todo mundo. Se a cena exige sangue, improvisa logo uma mistura de groselha, corante e mel para garantir as fortes emoções que o público tanto espera. Ensaia uma determinada cena várias vezes para que a única câmera usada em toda a gravação capte com precisão as engenhosidades que idealizou e, de quebra, poupe um pouco o fôlego e o ombro do amigo cinegrafista, que, segundo Adão, não gosta de usar tripé.

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